XXV ENCONTRO ANUAL
16 a 20 de outubro de 2001, Caxambu, MG
 

ST14 - Para onde vai o capitalismo no Brasil?
Dilemas e perspectivas das empresas e dos empresários

RESUMOS DOS SEMINÁRIOS

1ª sessão: Conferência envolvendo discussão teórica sobre a ação coletiva dos empresários e o Estado


Ben Ross Schneider, Univ. Northwestern:

Estados e ação coletiva: a política do redesenho institucional das entidades empresariais da América Latina

Por que razão os padrões de organização empresarial variam tanto nos países em desenvolvimento? Dentre os países mais extensos da América Latina, o empresariado encontra-se bem organizado em associações abrangentes e voluntárias no México, no Chile e na Colômbia. Em contraste, no Brasil e na Argentina não existem associações abrangentes duradouras, o que se explica pelas distorções corporativistas, no caso brasileiro, e pelas rivalidades partidárias, na Argentina. Muitas teorias recentes da ação coletiva do empresariado enfatizam os fatores econômicos e sociais. Contudo a principal explicação para as diferenças na organização dos empresários na América Latina está na ação do estado em promover a organização de forma direta (oferecendo às entidades privilégios institucionais) ou indireta (permitindo o acesso efetivo das associações aos formuladores das políticas governamentais). Altos funcionários da área econômica são estimulados a fortalecer as associações de empresários para obter informação e ganhar o seu apoio na gestão de crises econômicas. Esses incentivos foram grandes quando da depressão dos anos 30 e 80. A colaboração entre funcionários do governo e as associações de cúpula foi importante no Chile, no México e em menor proporção na Colômbia.


2ª sessão: Empresa e empresários em face da globalização

Ana Maria Kirschner, UFRJ:

Grandes grupos familiares diante da globalização

O trabalho analisa a história de dois grandes grupos com características de empresas familiares do Rio de Janeiro, a Ipiranga, fundada em 1937, e a Sul América de Seguros, fundada em 1895. Os dois grupos tiveram forte crescimento ao longo dos anos, sempre guardando as características de empresas familiares e nacionais. O texto apresenta as relações que as duas empresas mantêm com os centros de poder e com as comunidades em que estão inseridas, analisando algumas de suas estratégias para tentar verificar em que medida estes dois sólidos grupos resistirão às mudanças no cenário econômico brasileiro .



Ary Cesar Minella, UFSC:

Globalização financeira e as associações de bancos na América Latina

Desde uma perspectiva sociopolítica, o trabalho indica algumas dimensões do poder das instituições financeiras no atual contexto de globalização financeira: (1) a existência dos grupos financeiros; (2) o controle sobre o fluxo de capitais; (3) a participação no processo político e nos aparatos de decisão do estado e (4) a representação e organização de classe tomando por base as Associações de Bancos e Instituições Financeiras. A análise, centralizada na última dimensão apresenta os resultados de pesquisa recente sobre as Associações de Bancos na América Latina e aborda o impacto da globalização financeira com base na participação das instituições financeiras estrangeiras na composição das diretorias das associações, tomando-se como referência o ano de 2000. Examina-se treze associações em oito países, incluindo-se a Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban), com um total de 164 cargos de direção. Os resultados obtidos até o momento indicam uma ativa presença dos bancos estrangeiros, os quais controlam praticamente a metade dos postos de direção, com destaque para dez grupos financeiros da Europa e dos Estados Unidos, que ocupam 1/3 dos cargos, atuando de forma simultânea em várias associações (três ou mais), o que possibilita a formação de redes transassociativas. O exemplo mais significativo é o Citibank (Citigroup), que participa da diretoria de dez associações, em seis dos oito países analisados, ocupando a vice-presidência em três delas. O trabalho discute algumas particularidades e possíveis implicações deste processo.



Maria Antonieta P. Leopoldi, UFF, e Eduardo Rodrigues Gomes, UFF:

As políticas governamentais voltadas para a indústria brasileira e as arenas de formulação e implantação nos anos 90



Jair do Amaral Filho, UFC:

Fluxo e refluxo das influências  do centro industrial do Ceará sobre as políticas públicas locais


3ª sessão: Organizações empresariais e políticas públicas: continuidades e mudanças

Eli Diniz, UFRJ, e Renato Raul Boschi, IUPERJ:

Reconfiguração do mundo empresarial: associações de representação de interesses, lideranças e ação política

O presente trabalho tem por objetivo analisar a visão de lideranças empresariais de importantes segmentos da indústria brasileira sobre a implementação das reformas orientadas para o mercado e a instauração dos alicerces de um novo modelo econômico, no Brasil dos anos 90. Baseia-se em entrevistas em profundidade realizadas com presidentes de entidades e organizações empresariais, da estrutura corporativa tradicional e das associações paralelas, entre as quais a Fiesp, a Firjan, a Fiemg, a CNI, a ABDIB, a Abimaq e diversos sindicatos nacionais, além de dirigentes de organizações empresariais voltadas para a ação nos planos ideológico, social e político, como o Iedi e o PNBE. A análise focaliza especialmente a percepção das lideranças entrevistadas acerca do resultado das reformas liberais, notadamente a liberalização comercial e a privatização, não só para o setor representado pela entidade em questão, como também para a economia do país. Um segundo conjunto de questões refere-se à percepção de tais elites quanto ao estágio atual das relações capital/trabalho, bem como sua avaliação sobre a viabilidade de uma agenda compartilhada entre empresários e trabalhadores. Finalmente, atenção especial é dada à avaliação das mudanças no padrão de articulação empresário/estado, com a redefinição do peso relativo do Executivo e do Legislativo na formulação das políticas responsáveis pelos rumos do capitalismo industrial no Brasil.



Otávio Soares Dulci, UFMG:

Itinerários do capital e seu impacto no cenário interregional

O trabalho focaliza a trajetória recente do sistema empresarial brasileiro sob a perspectiva inter-regional. Busca avaliar os desdobramentos da abertura econômica (e de reformas institucionais correlatas) no tocante à divisão inter-regional da produção. Atenção especial será dada ao impacto político dos deslocamentos territoriais do capital, exprimindo-se por processos como a “guerra fiscal” entre os estados.



Ignacio Godinho Delgado, UFJuiz de Fora:

O empresariado, reformas econômicas, custo Brasil e política social

O consenso empresarial em torno das reformas estruturais, no início da década de 1990, foi gestado em meio à ameaça vislumbrada na afirmação dos trabalhadores na cena política brasileira nos anos 80 e ao esgotamento do desenvolvimentismo. Tal consenso, não alcançou, entretanto, a política de abertura comercial, que sofreu objeção dos empresários, seja quanto ao seu timing, seja por não vir acompanhada da definição de políticas que atenuassem seu impacto junto aos ramos menos competitivos. De todo modo, a resposta empresarial à política de abertura foi marcada por estratégias de reestruturação defensivas, com pouco destaque para a acentuação da capacidade de inovação tecnológica das empresas, e pela denúncia do predomínio dos impostos indiretos na estrutura tributária brasileira, até com restrições à forma predominante de custeio das políticas sociais no País, invertendo antiga preferência empresarial. Definidas nos marcos de uma economia fechada, a estrutura tributária e a forma de custeio das políticas sociais são associadas, no discurso empresarial, ao Custo Brasil, de onde derivaria a pequena competitividade das empresas brasileiras numa economia aberta. O declínio da presença política dos trabalhadores, que acompanha o processo de reestruturação, é o principal fator a dificultar que o deslocamento na preferência empresarial apareça como uma janela de oportunidade para a definição de um modelo público-universalista de política social, favorecendo a afirmação das perspectivas que buscam sua residualização, por via do predomínio da oferta privada.



Paulo Roberto Neves Costa, UFPR:

Empresariado, ação política e democracia nos anos 90

Este trabalho analisa os padrões de ação política do empresariado brasileiro no contexto da democracia pós-88. Pretendemos averiguar as relações entre o comportamento do empresariado, organizado em suas entidades, e o processo de institucionalização e consolidação da democracia no Brasil. Tomamos por referência duas importantes entidades empresariais paulistas, a Associação Comercial de São Paulo e a Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Por um lado, constatamos a necessidade de analisar não apenas a relação entre empresários e política econômica, mas também a dimensão institucional de sua ação política e sua articulação com o regime político. E por outro, verificamos que tal ação política reforça, pela presença e pela ausência, certas particularidades do regime político democrático ora vigente no país.