XXV ENCONTRO ANUAL
16 a 20 de outubro de 2001, Caxambu, MG
 

ST11 - Natureza e cultura: uma fronteira em discussão

RESUMOS DOS SEMINÁRIOS

1ª sessão: A cultura incorporada


Paulo Cesar Alves, UFBA, e Miriam Rabelo, UFBA:

Corpo, experiência e cultura

Nos últimos anos tem havido um interesse marcante nas ciências sociais pela temática do corpo. Na nova onda de estudos, o corpo aparece não apenas como o lócus onde se inscrevem e articulam significados (políticos, econômicos etc.), mas também como produtor de sentido. Essa discussão traz implicações importantes, tanto para a teoria da ação, conduzindo a uma crítica à separação entre fases mental e executiva da ação (ou entre ação racional e ação habitual), quanto para a teoria da cultura, conduzindo a uma crítica e reformulação do conceito enquanto sistema de representações (e das relações entre representações e práticas). O presente trabalho propõe apresentar uma reflexão sobre o tema que, longe de pretender fazer um apanhado exaustivo de suas várias dimensões e dos principais autores que a ele tem se dedicado, busca: (1) remeter a alguns dos pressupostos teóricos que tem orientado pelo menos uma parcela importante da discussão corrente, notadamente às reflexões de Heidegger e Merleau-Ponty; (2) articular conceitualmente, com base nesses pressupostos, as noções de corpo e experiência; (3) explorar algumas das implicações dessa abordagem a pesquisas das ciências sociais, principalmente no campo da saúde.


2ª sessão: Biologia, genética e ciências sociais

Ricardo Ventura Santos, FIOCRUZ:

Afinal, quatro letras são suficientes para escrever o humano? Refletindo sobre a antropologia na era da genômica

Acelerados desdobramentos em genética e em tecnologias biomoleculares nas últimas décadas estão transformando a ciência em diversos campos, com amplas repercussões sobre a cultura e a sociedade. O projeto de seqüenciamento do genoma humano, com sua meta de definir a ordem de nucleotídeos (A,C, G e T) que compõem o DNA nuclear humano, condensa tal processo. Findado o seqüenciamento, mesmo alguns dos proponentes mais entusiastas colocam que as promessas de decifrar questões relativas ao âmago do que é ser ‘ser humano’ continuam a residir no futuro. Algo que também chama atenção é que os resultados produzidos pelas mais modernas tecnologias de seqüenciamento têm nutrido (e mesmo fortalecido) “velhos” e tradicionais debates, como a oposição natureza/cultura, a magnitude das diferenças entre as várias populações humanas (raça e conceitos associados), o peso de determinismos e reducionismos, o espectro da eugenia, e assim por diante. Além de fornecer um panorama introdutório da genética em sua vertente genômica, a apresentação procura mapear algumas questões que emergem (bem como as que reermergem) com a infusão da genômica em questões afins à antropologia, em particular no âmbito da antropologia biológica.



Maria Teresa Citeli, UNIPAC-SP:

De dentro do corpo: genética, anatomia e química das diferenças sexuais

No início de 2001, a apresentação de relatórios sobre o mapeamento do genoma humano trouxe para as páginas das mais poderosas revistas científicas (Nature e Science) e dos jornais diários um eloqüente episódio do debate sobre natureza e cultura, que há muito tempo mobiliza o interesse de biólogos, estudiosos das ciências, antropólogos, sociólogos e jornalistas envolvidos na produção, interpretação e divulgação do conhecimento científico. Considerando o crescente apelo da discussão sobre as possibilidades (reais ou imaginárias) oferecidas pelo avanço da Genética, em particular, e das Ciências Biológicas em geral, o presente trabalho retoma alguns dos principais desafios encontrados por estas últimas para explicar diferenças sexuais recorrendo a estruturas e processos invisíveis, localizados no interior do corpo, como genes, regiões do cérebro e hormônios. Apresentam-se, também, as controvérsias e questões teórico-metodológicas enfrentadas por pesquisadores que se empenham, no âmbito das Ciências Biológicas e das Humanidades, em construir argumentos visando admitir, negar, limitar ou re-interpretar as afirmações que operam – para reduzir ou ampliar – a influência de fatores biológicos e ambientais em explicações sobre funcionamento do corpo e expressão de comportamentos humanos.


3ª sessão: Ultrapassando os dualismos: há uma pessoa pós-moderna?

Jane Araujo Russo, UERJ, e Edna Ponciano, PUC-RJ:

O sujeito da neurociência

A Neurociência, entendida em um sentido amplo, abarca tanto disciplinas como a Filosofia da Mente, a Inteligência Artificial e a Psicologia Cognitiva, quanto aquelas que se debruçam sobre o funcionamento cerebral strictu sensu. Na verdade, trata-se de uma nova área de conhecimento que atravessa e congrega saberes tradicionalmente classificados em campos díspares (ciências humanas de um lado, ciências naturais de outro). Esse apagamento de fronteiras aponta para sua vinculação ao antidualismo que sustenta a crítica contemporânea ao racionalismo ocidental. Os saberes acima listados congregam-se em torno do consenso acerca do caráter biológico do fenômeno da consciência Esta será tanto melhor compreendida quanto mais avançarem os conhecimentos sobre o funcionamento cerebral. Tal concepção implica uma negação do tradicional dualismo corpo/mente ou físico/mental, e funda um certo modo de conceber o sujeito que recebe o título de “pós-moderno”. O objetivo de nosso trabalho é, de um lado, analisar essa idéia de superação do moderno (através da superação dos diversos dualismos típicos da modernidade) partindo de uma reflexão sobre as contradições e os paradoxos que marcaram e marcam a constituição da pessoa moderna e, de outro, discutir o modo como tal superação se insere no interior de uma visão “biologizante” ou “fisicalista” de mundo.



Regina Coeli Machado e Silva, UNIOESTE-PR:

Representação da pessoa, biologia e antropologia cognitiva

Dentre as várias representações da pessoa na cultura contemporânea, há aquelas que, pretendendo “curar a cegueira” de mais de três séculos da filosofia e da ciência moderna, querem superar o crucial dualismo entre mente e corpo. Deste modo, há pretensões de traçar uma totalização da pessoa por meio de certas premissas adotadas sobre a “mente”, advindas das reflexões que enfatizam os “padrões de conexões de neurônios no cérebro” e da sua divisão entre hemisfério direito e esquerdo. De maneira homóloga, no interior da Antropologia Cognitiva, também se coloca a necessidade de “repensar” os desdobramentos decorrentes da dualidade mente/corpo, contrapondo o conceito de representação, nos termos durkheimnianos, aos fenômenos extra-sociais, em termos de padrões neurofisiológicos. O argumento deste trabalho, desenvolvido com base nalguns dados etnográficos, é que, em qualquer um desses dois níveis de problematização, o recurso a alguns temas específicos da biologia para compreender a dualidade mente/corpo pode delimitar mais profundamente as questões aí colocadas, mas não chega a abalar o estatuto epistemológico da Antropologia no que se refere ao fundamento social da cognição.