ST03 - Ciências sociais e comunicação: diálogos conceituais e avanços na pesquisa
RESUMOS DOS SEMINÁRIOS
1ª sessão: Workshop: resultados das eleições 2000
Rio de Janeiro
Na explicitação e análise do papel da mídia impressa diária na cobertura das eleições municipais de 2000 do Rio de Janeiro, procuramos quantificar o tratamento dado por cada jornal aos diferentes candidatos, privilegiando três aspectos que se mostraram relevantes tanto a partir das expectativas teóricas clássicas, quanto na análise empírica dos jornais. Dizem respeito aos critérios centrais de visibilidade, proporcionalidade e veloci-dade, ou atualidade, da cobertura jornalística. É a partir da identificação destes critérios na cobertura das eleições que é possível avaliar a relevância atribuída por cada jornal à cobertura eleitoral em geral e a cada candidato em particular. A partir destes aspectos, vemos que os jornais tendem a acompanhar as pesquisas de intenção de voto, dando mais espaço na cobertura aos candidatos mais bem situados nas pesquisas. O caráter de veracidade e objetividade reivindicado pela imprensa contemporânea, por outro lado, relaciona-se à credibilidade conferida aos meios jornalísticos, especial-mente impressos, em oposição à propaganda eleitoral. A análise da importância relativa da cobertura em geral e de cada candidato procura, assim, identificar o caminho de leitura “natural” sugerido pelo jornal. Muitas vezes a demanda por notícias “quentes”, sensa-cionais, a narrativa de escândalos e a pirotecnia exibidos pelos meios se impõe sobre os critérios anteriores, permitindo aos candidatos hábeis na produção de eventos noticiosos ocupar um espaço importante independente de sua posição nas intenções de voto. A partir das concepções de noticiabilidade adotadas pelos jornais, é possível situar a cobertura eleitoral dentro do panorama mais abrangente do cenário eleitoral histórico e político-partidário, bem como a conjuntura e dinâmica do próprio processo.
Fernando Antonio de Azevedo, UFSCar, e Rachel Meneguello, UNICAMP:
Imprensa e cobertura eleitoral no pleito municipal de 2000 em São Paulo
O trabalho apresenta e discute dados sobre a cobertura eleitoral de três grandes jornais paulistas sobre a competição municipal (primeiro e segundo turno) em São Paulo. Os dados fazem parte da pesquisa temática “Mídia, campanha eleitoral e comportamento político em São Paulo”, financiada pela Fapesp e envolvendo pesquisadores da Unicamp, PUC-SP, UFSCar e USP, com o objetivo de acompanhar a cobertura da mídia eletrônica e impressa nas eleições de 2000 e 2002 em São Paulo. A referida investigação faz parte de uma rede nacional de pesquisa montada a partir do GT Mídia, Opinião Pública e Eleições da ANPOCS.
Flavio Eduardo Silveira, PUC-RS:
Dilemas da gestão metropolitana cooperativa: o caso da Porto Alegre
O trabalho examina a relação entre o poder público e a sociedade civil no trato da questão metropolitana, do ponto de vista dos novos arranjos político-institucionais, surgidos no período posterior à Constituição Estadual de 1989.
Mario Fuks, UFPR, e Emerson Urizzi Cervi, UFPR:
A cobertura da mídia impressa nas eleições municipais de Curitiba 2000
O presente artigo analisa a cobertura da mídia impressa nas eleições municipais para prefeito em Curitiba no ano 2000. Tomando-se por base dados coletados em dois dos principais jornais do estado – Gazeta do Povo e Folha do Paraná –, realizou-se uma análise das matérias que se referem aos candidatos durante o processo eleitoral. A investigação inicia-se com a cobertura geral da eleição, levando-se em conta as variações por turno e por jornal. Na segunda parte, a análise centra-se na visibilidade e na imagem dos candidatos. Entre as conclusões do trabalho, destacam-se duas: (1) a eleição, em Curitiba, só despertou o interesse da mídia impressa a partir do final do primeiro turno. O trabalho sugere que isso ocorreu graças, por um lado, à influência da pesquisa eleitoral, que, no início do processo eleitoral, apontava uma eleição de resultados definidos por antecipação e, por outro lado, aos próprios atores diretamente interessados, que não tentaram ou não conseguiram alterar essa quadro “produzindo notícias”; (2) o tratamento dispensado aos candidatos – tanto em termos de visibilidade como de valência – altera em razão do tipo de matéria. Em comparação com as colunas assinadas, as reportagens oferecem aos candidatos uma condição mais próxima da igualdade de acesso ao espaço jornalístico e são mais neutras em relação às valências associadas às candidaturas.
Antonio Albino Canelas Rubim, UFBA:
Eleições de 2000 e mídia em Salvador
A pesquisa busca analisar a relação entre a mídia (baiana) e a eleição para a prefeitura municipal de Salvador em 2000. Com esta finalidade estão sendo estudados: os três jornais diários de Salvador (A Tarde, o Correio da Bahia e a Tribuna da Bahia, diversos programas jornalísticos de quatro das cinco emissoras de televisão aberta da capital baiana (TV Bahia, TV Itapoã, TV Bandeirantes e TV Aratu), o bloco do horário de propaganda eleitoral gratuita, os spots eleitorais, a eleição na Internet, além do planejamento e da execução das campanhas. Ao abarcar a quase totalidade da mídia instalada em Salvador (com exceção das emissoras de rádio) e abranger produtos midiáticos diferenciadas, a pesquisa objetiva traçar um panorama bastante completo e sistemático das relações desenvolvidas entre mídia e eleição no ano de 2000 na capital baiana. A análise está atenta não só à atuação político-eleitoral de cada mídia, mas observa sobretudo as articulações, os contrastes e os embates das estratégias político-midiáticas conformadas pelos atores políticos em competição na circunstância eleitoral de 2000. Algumas constatações preliminares já podem ser adiantadas. Dentre elas devem ser enumeradas: (1) o silenciamento das eleições efetuado pela mídia televisiva; (2) a instrumentalização aberta e a parcialidade da cobertura da mídia impressa, ainda que em alguns casos recorrendo a alguns dispositivos mais complexos; (3) a ampliação e sofisticação do uso da Internet; (4) a articulação em campanhas de diferenciadas estratégias discursivas eleitorais, que perpassam diversas mídias e formatos midiatizados; e (5) a importância assumida pela mídia e pela campanha eleitoral realizada na “tela” em comparação com aquela desenvolvida da “rua”.
Rejane Vasconcelos Accioly Carvalho, UFC:
Política de imagem e competitividade eleitoral: a disputa pela prefeitura de Fortaleza em 2000
O objetivo central deste texto é a análise da campanha pela prefeitura de Fortaleza em 2000 como momento de reinstauração da competitividade em uma disputa eleitoral majoritária, após mais de uma década de monótonas vitórias em 1º turno do candidato favorito. As principais questões que norteiam essa análise são: quais pré-condições inscritas no cenário político permitiam esperar uma acirrada disputa? Quais as caraterísticas de uma campanha competitiva em tempos de política de imagem? Em que medida uma campanha competitiva oferece ao analista acesso privilegiado ao arquivo do imaginário político acionado intencionalmente, quer na construção de imagens políticas que tenham ressonância dos “eleitores-consumidores”, quer no capítulo dos ataques e defesas quando se escolhe alvos e “armas” para neutralizar ou destruir imagens dos adversários, alterando posições de vantagens ou desvantagens na disputa? As pretensões de gestão científica de imagens políticas que orientam e legitimam a atuação dos especialistas na “engenharia” da campanhas modernas são negadas ou confirmadas? O foco central da análise será a campanha na televisão, selecionado-se os programas dos candidatos que estiveram no centro da disputa com alterações de posições registradas nos resultados das pesquisas de intenção de voto divulgadas no período eleitoral: no primeiro turno, dos candidatos Juraci Magalhães (prefeito candidato à reeleição pela frente PMDB); Patrícia Gomes (candidata do PPS coligado com o PSDB de Tasso); Inácio Arruda (candidato do PC do B coligado com PT, PSB, PTB e PDT) e Moroni Torgan (PFL); no segundo turno, o duelo entre Juraci e Inácio .
Malco Braga Camargos, IUPERJ e Luiz Ademir de Oliveira, IUPERJ:
A imprensa mineira e a disputa eleitoral
O trabalho tem como objetivo principal demonstrar em que medida a mídia e, no caso, a imprensa escrita agiu na construção social da realidade. Para isso, foi analisada a cobertura jornalística de dois órgãos de imprensa de Belo Horizonte – os jornais Estado de Minas e O Tempo – em relação à disputa pela Prefeitura da capital mineira no ano de 2000. Verificamos que na relação da imprensa com a política é válida a idéia de que os meios de comunicação de massa, ao contrário do que prega o mito da objetividade, são parte constitutivas da realidade social e atuam na construção de cenários políticos, no agendamento de temas e na consolidação ou enfraquecimento de candidaturas. A análise comparativa dos dois jornais permitiu verificar a forma como os dois veículos agiram construindo uma realidade. Além de diferenças de cobertura, pôde-se verificar, também, mudanças no tratamento e na visibilidade dos candidatos, o que mostra que a linha editorial pode significar uma cobertura diferenciada para as eleições.
2ª sessão: Interdisciplinaridade: diálogos conceituais e metodológicos
Marcus Figueiredo, IUPERJ:
Persuasão política e formação de preferências sociais
As ciências sociais em geral e a ciência política em particular sempre tomaram as preferências sociais como um fenômeno explicável ora pela socialização, ora pelas características ideológicas ou, ainda, pelas características estruturais da sociedade. Não obstante o poder explicativo destas teorias, muitas vezes os cientistas sociais eram obrigados a lançar mão da psicologia, em especial a cognitiva, para soldar interações pouco consistentes. Recentemente está havendo uma tentativa, promissora, de recuperar a teoria da persuasão, muito usada na ciência social até os anos 50, como um instrumental analítico capaz de fazer a ponte entre os sistemas de crenças sociais, e seus constrangimentos estruturais, e as ações sociais, individuais ou não, que revelam as preferências individuais ou de coletividades. O objetivo desde trabalho é incorporar em nossas explicações o processo de persuasão a que indivíduos e coletividades são submetidos ao decidirem o que fazer de suas vidas, votando, mudando de religião, mudando de opinião etc. Esta tentativa de construção analítica é fundamentada com pesquisas que se ocuparam com o tema da preferência social.
Norval Baitello Jr., PUC-SP:
Mídia, política e semiótica
O estudo da dinâmica dos processos simbólicos tem se voltado cada vez mais para os processos complexos da comunicação política e da política da mídia como objetos de estudo privilegiados. Dentre os inúmeros aportes e orientações de estudos mereceu injustamente pouca atenção no Brasil o trabalho do cientista político e jornalista alemão Harry Pross propondo uma semiótica política (da mídia). Aluno de Alfred Weber (e não Max!) e vivo polemizador de Habermas, o velho mestre tem se manifestado com veemência, ao longo de seus quase oitenta anos e mais de quarenta livros, sobre todas as mais recentes conseqüências sociais e políticas da tecnicização de nossas relações comunicativas. Tanto seus conceitos de ‘economia dos sinais’ quando seus estudos sobre ‘verticalismo e campos simbólicos’, por sua agudez e originalidade, poderiam oferecer, aos cientistas sociais e aos pesquisadores da comunicação e da mídia, um instrumental que aponta criticamente para os problemas das muitas intersecções e interfaces entre mídia e política.
Afonso de Albuquerque, UFF:
A comunicação política e o desafio das tecnologias da comunicação e da informação
A Ciência Política e a Comunicação têm origens e desenvolveram tradições teóricas muito distintas entre si. A partir da década de oitenta, entretanto, os dois campos de investigação se aproximaram consideravelmente a ponto de constituírem um patrimônio comum: a Comunicação Política. Para muitos cientistas políticos, tornou-se óbvio que novos agentes haviam penetrado a cena política, e que a sua presença interferia nas relações que os agentes tradicionalmente investigados (partidos políticos, movimentos sociais, burocracias estatais etc.) mantinham entre si. Para os pesquisadores da área da Comunicação, os estudos de Ciência Política ofereciam novas possibilidades analíticas para além das considerações sobre os efeitos (poderosos ou limitados) das mensagens midiáticas. O esforço conjunto de exploração do campo tem produzido resultados promissores. O universo de questões inexploradas é, porém, muito mais significativo. Meu trabalho pretende dar conta objetiva dar conta de apenas um conjunto dentre diversos outros – dessas questões, referente à importância de se considerar as tecnologias de comunicação e informação como um fator relevante na análise da comunicação política.
3ª sessão: Compreensão de uma realidade midiática: relatos e pesquisas interdisciplinares
Adriano Oliveira, UFPE:
Tiros na democracia: de que lado ficou a imprensa na greve da polícia militar de Pernambuco no ano de 1997?
Neste trabalho de pesquisa procuro responder ao seguinte questionamento: a existência do sufrágio universal é um pressuposto suficiente para afirmar que a democracia brasileira está consolidada? Acredito que não. A democracia pressupõe muito mais. A existência do sufrágio universal é apenas a condição necessária para uma democracia. Compreendo que democracia pressupõe instituições fortes, Estado de Direito e imprensa livre e independente. Diante disso, faço nesta pesquisa uma análise do comportamento da imprensa diante da greve da Polícia Militar de Pernambuco ocorrida em 1997. Procuro verificar se o pluralismo de idéias/opiniões, se a liberdade de expressão e o direito de informação do público, que são princípios democráticos, pautaram o comportamento da imprensa no período do movimento militar. No entanto, a pesquisa não se restringiu apenas à análise desses princípios. Com base numa exaustiva pesquisa de campo, verifiquei os interesses privados que pautaram o comportamento da imprensa em detrimento do interesse público, e como a imprensa se posicionou de forma decisiva no contexto do movimento grevista.
Liziane Guazina, UnB:
Alinhados com o poder: um estudo sobre a cobertura política
do
Jornal Nacional e do Jornal da Record (março-agosto/98)
No presente trabalho, analisamos a cobertura política apresentada pelos dois telejornais de maior audiência no país - o Jornal Nacional e o Jornal da Record - em um período de seis meses antes das eleições presidenciais de 1998. Entre os meses de março a agosto, realizamos um acompanhamento diário da cobertura referente aos cinco principais temas da agenda política do período, a saber: seca e saques no nordeste, desemprego, eleições presidenciais, privatização da Telebras e greve dos professores universitários. O objetivo era descobrir qual foi o enquadramento dado à cobertura política e quais os possíveis critérios de noticiabilidade utilizados pelos dois telejornais.Os resultados da pesquisa indicaram que tanto o Jornal Nacional quanto o Jornal da Record, a despeito de suas histórias e características diferentes, mantiveram-se alinhados politicamente aos interesses do governo Fernando Henrique Cardoso por meio de um enquadramento oficialista, e do uso de critérios de noticiabilidade que favoreceram o ponto de vista governamental, com a presença preponderante das fontes oficiais.
Luciana Fernandes Veiga, IUPERJ:
Em busca de razões para o voto: o uso que o eleitor faz da propaganda política
A expansão do marketing político televisivo e a sua crescente influência no processo eleitoral tem despertado a atenção dos cientistas políticos. Diante do processo de personalização da política decorrente da exposição direta do candidato ao eleitor por meio da televisão, o meio acadêmico aponta para a necessidade de revisão dos modelos explicativos de decisão do voto existentes. Este trabalho vai ao encontro de tal demanda, o seu objetivo é examinar como os eleitores processam as mensagens políticas divulgadas pelo horário eleitoral e como as utilizam na decisão do voto. O trabalho está baseado em uma investigação empírica realizada na ocasião da disputa presidencial de 1998, quando buscamos analisar o impacto persuasivo do horário eleitoral sobre o homem comum, este definido segundo critérios de baixa escolaridade, baixa renda e baixo interesse pela política. O trabalho valeu-se de pesquisas qualitativas, com entrevistas em profundidade e grupos de discussão, realizadas durante todo o período da disputa. Os resultados obtidos apontaram que o eleitor raciocina sobre os candidatos, os programas de governo e os temas relevantes da campanha ao decidir o seu voto. O horário eleitoral é visto como fonte importante de informação, na medida em que aumenta a exposição dos políticos na mídia e oferece informações mais assimiláveis. O eleitor seleciona e processa as mensagens veiculadas pelas propagandas com base em seu estoque de conhecimentos e de seus valores. O horário eleitoral oferece argumentos para o eleitor defender sua atitude sobre o voto nas conversas do dia-a-dia, onde, de acordo com os dados empíricos, as opiniões se cristalizam.