ST02 - A antropologia e seus métodos: o arquivo, o campo, os problemas
RESUMOS DOS SEMINÁRIOS
1ª sessão:
O saber antropológico e a totalidade nos fatos sociais
O presente trabalho retoma dois aspectos do ‘fazer etnografia’ a fim de refletir sobre as práticas metodológicas atuais na antropologia brasileira e mundial, que, à primeira vista, se caracterizam pelo uso de distintas técnicas e métodos de pesquisa, e não pelo uso predominante da ‘observação participante’. Esta reflexão defende o ‘fazer etnografia’ como base de qualquer antropologia por duas razões. Em primeiro lugar, tomando a etnografia não como simples estratégia de coleta de dados, mas como uma postura epistemológica capaz de gerar diversas práticas de pesquisa (ou antes, exigindo a diversificação da abordagem dos temas concretos investigados). No argumento apresentado, essa posição aparecerá como conseqüência lógica da natureza “total” dos fatos sociais. Em segundo lugar, como postura epistemológica, a etnografia não exige a presença corporal do pesquisador no contexto da pesquisa em todos os casos investigados. No entanto, o saber produzido na investigação demanda um olhar imaginado de etnógrafo, como se estivesse presente e alerta, de forma incorporada, à totalidade dos fatos sociais investigados. Eis o produto final: o saber antropológico sempre colorido pela visão etnográfica.
Denise Pirani, UNICAMP:
Do campo ao texto, do objeto ao sujeito
Esse trabalho é uma reflexão metodológica sobre uma pesquisa acerca de um grupo de travestis em Paris, e cujo objetivo principal era compreender os processos de exclusão nos grandes centros urbanos. Com base numa série de confrontos e conflitos no decorrer da pesquisa de campo, e de situações até então inéditas para mim, pretendo refletir sobre a inserção e a interação do pesquisador com o grupo de estudo e sobre as construções teóricas de “verdades” acerca das realidades humanas. Essa reflexão deverá abordar também as novas condições de produção de conhecimento a que a antropologia está sujeita, fruto de mudanças em seu objeto de estudo, no campo de investigação, na relação pesquisador/informante, nas teorias… Mudanças que têm imposto aos antropólogos novas reflexões e novos métodos de investigação, provocando não somente novas reflexões epistemológicas sobre como “fazer” antropologia, mas também sobre o sentido político das pesquisas desenvolvidas.
Emerson Alessandro Giumbelli, UFF:
Para além do "trabalho de campo": reflexões
supostamente malinowskianas
O trabalho propõe uma releitura, confessadamente interessada e irônica, dos célebres esclarecimentos prestados por Malinowski no capítulo de abertura dos Argonautas do Pacífico Ocidental. Nesse texto, Malinowski expõe suas justificativas para o tipo de aproximação que realizou para estudar uma população melanésia da década de 10, aproximação desde então consagrada na antropologia mediante a idéia de “trabalho de campo”. Pretendo, de minha parte, demonstrar que as mesmas justificativas, colocadas dentro dos quadros propiciados por objetos bem diversos, podem fundamentar uma outra aproximação metodológica. Nesse sentido, continuar “fiel” a Malinowski significa relê-lo (e mesmo subvertê-lo) de forma a explorar certas virtualidades de seu texto, acionadas com base em situações de pesquisa com que os antropólogos se deparam atualmente, permitindo adequar à disciplina metodologias que não se definem estritamente como “trabalho de campo”. Essas reflexões assentam-se sobre uma trajetória pessoal caracterizada exatamente por pesquisas que privilegiaram materiais arquivísticos e fontes textuais.
2ª sessão:
Fabíola Rohden, UERJ:
Antropologia, história e gênero
Este trabalho discute a relação entre antropologia e história nos estudos de gênero, considerando duas faces dessa questão: a utilização de fontes arquivísticas no trabalho de campo tradicional e a separação entre disciplinas. Utilizo o debate sobre uma “história das mulheres” ou uma história que considere a perspectiva das relações de gênero porque permite uma discussão mais precisa. Na “história das mulheres” predomina um enfoque mais tradicional, centrado na discussão sobre as fontes e sua validade, com uma delimitação mais enfática dos períodos e o privilégio a um determinado conjunto de atores. Já a ênfase na perspectiva de gênero tem caracterizado a produção de antropólogos que trabalham com processos históricos e de historiadores que têm revelado suas dívidas com a antropologia. Nesses casos, o recorte se centra na tentativa de uma apreensão, evidentemente sempre provisória e inacabada, do conjunto da sociedade, dos processos em curso, sem uma delimitação prévia e estática dos períodos e, sobretudo, privilegiando as relações em jogo. Embora marcando as diferenças entre o trabalho de campo e o recurso a fontes históricas, sugiro que essas características, as quais têm sua origem no método etnográfico, têm redefinido a produção de conhecimento na temática das relações de gênero.
Fernanda Arêas Peixoto, UNESP/Araraquara:
O diálogo como forma
O objetivo desta comunicação é discutir a perspectiva analítica adotada na pesquisa que realizei sobre a obra brasileira de Roger Bastide. Menos que um trabalho histórico, um perfil biográfico ou exegese de texto, a análise visou empreender uma descrição minuciosa do relevo acidentado das idéias de Bastide, valendo-se de diálogos que ele estabelece com três expoentes de nossa tradição intelectual: Mário de Andrade, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes. A consideração dessas interlocuções permitiu a leitura integrada de temas e problemas, freqüentemente lidos de forma isolada. Se o método ensaiado tem alguma inspiração preponderante, pode-se dizer que esta se localiza no próprio Bastide, que defende, entre outros pontos, o acompanhamento de temas obsessivos, quando se trata da análise da obra de um autor, e o “princípio dos refletores convergentes”, que consiste em lançar vários feixes de luz sobre um objeto, de modo a captá-lo de diversos ângulos e em movimento. Os diálogos, por sua vez, por ele utilizados em diferentes ocasiões como forma expositiva e reflexiva, permitem a articulação fina entre texto e contexto, e, com isso, a superação de velhas dicotomias como “análise internalista” ou “externalista”.
José Maurício Andion Arruti, UFRJ:
Memória e interesse
Esta comunicação tem o objetivo de refletir sobre duas situações de pesquisa que buscam a conexão entre etnografia e história documental. Desenvolvidas entre os Pankararu (Petrolândia, Tacaratu e Jaciobá – PE) e os Xocó e negros do Mocambo (Porto da Folha – SE), ambas realizam essa conexão por meio da noção de memória social, mas distanciam-se ao explorarem as relações de complementaridade e contrariedade que esta estabelece entre etnografia e história. Tal contraste de procedimentos abre espaço, de um lado, para uma crítica (antropológica) das fontes historiográficas, etnográficas e documentais, que busca fugir à persistente dicotomia entre reconstituição objetiva dos processos e hermenêutica das representações sociais. Se antes esse crivo separava, grosso modo, historiadores de antropólogos, hoje ele produz dissensões, tanto entre antropólogos quanto entre historiadores. De outro lado, abre espaço também para uma reflexão sobre a relação entre etnografia e interesse. A consolidação e expansão do uso de textos antropológicos como peças técnicas em processos judiciários e administrativos (os “laudos antropológicos”) renova ao mesmo tempo em que particulariza problemas inseparáveis da história social da disciplina. À força que a “encomenda” exerce sobre a definição de temas, abordagens e também sobre descrições e interpretações, agregam-se os problemas relativos ao próprio regime discursivo assumido pela prática antropológica: tradução e interpretação ou prova de verdade sob forma jurídica?
Tânia Stolze Lima, UFF:
“Enquanto a sociologia se esforça para fazer a ciência social do observador, a antropologia”, afirmou Lévi-Strauss, “procura elaborar a ciência social do observado”. Por outro lado, não parece menos dotado de um valor de verdade o argumento de Tylor segundo o qual “a ciência da cultura é, fundamentalmente, uma ciência do reformador”. Com base na hipótese de que o trabalho de campo em sociedades indígenas situadas no Brasil é, muitas vezes, condicionado por uma contradição entre o ponto de vista do reformador e aquele do observado, pretendo, nesta comunicação, efetuar uma análise de minha experiência de campo junto ao povo Juruna, a fim de discutir as razões pelas quais toda experiência etnográfica autêntica se manifesta, em mais de um aspecto, como uma ciência da domesticação do reformador.
3ª sessão:
Christine de Alencar Chaves, UFPR:
Pesquisando o MST: dilemas inquietantes, desafios promissores
Textos jornalísticos, diários, canções, manuais didáticos, representações teatrais, entrevistas, além da própria experiência de “observação participante” do antropólogo, tornam-se partes constituintes de monografias antropológicas. Conformando um único produto de bricolagem, o uso desses elementos diversos sugere que as dimensões múltiplas da vida social parecem requerer métodos diversificados de apreensão. Como tais elementos concorrem para a realização de textos etnográficos, pode-se perguntar desses produtos multifacetados: o que confere sua identidade antropológica? Seguindo a linha das indagações inquietantes, pode-se perguntar se o emprego de vários materiais, que implica métodos diversificados de investigação, é resultado apenas de uma diferença de escala das sociedades. Sem ser análise de discurso ou interpretação estética, uma etnografia lida com outros textos, assim como com manifestações artísticas. As questões de ordem analítica que disso resultam são acrescidas de outras colocadas pelo emprego de diários de informantes, e mesmo de sua fala. Textos de jornal podem servir para retratar o contexto da experiência de sujeitos sociais e da existência de sujeitos coletivos? Quais os limites desse uso? Defrontar essas questões – e seus correlatos éticos, tanto quanto epistêmicos – é um exercício de distanciamento necessário que a comunicação pretende esboçar tomando-se por base um experimento etnográfico.
Marcio Goldman, UFRJ:
“Do ponto de vista não nativo”: sobre a incompreensão antropológica
O objetivo básico dessa comunicação é refletir sobre a possibilidade de manter o ponto de vista antropológico tradicional quando o objeto observado faz parte do coração da sociedade do observador. Essa reflexão deverá ser efetuada mediante um confronto entre algumas discussões mais ou menos clássicas sobre a observação antropológica (Malinowski, Lévi-Strauss, Geertz, os “pós-modernos”…) e minha própria experiência de campo. Essa experiência possui, contudo, um duplo caráter: ela consiste em uma investigação acerca da possessão no Candomblé, conduzida há mais de 15 anos, em um terreiro do sul da Bahia, e em uma pesquisa sobre voto e participação eleitoral levada a cabo nesse mesmo contexto empírico a partir de 1996. Deixando de lado qualquer preocupação normativa, trata-se, por meio desse duplo confronto, de responder, ou pelo menos de equacionar, algumas das perguntas organizadoras deste Seminário: será efetivamente possível assumir um olhar distanciado em relação a algo tão central para o observador quanto a democracia participativa? De que forma e seguindo que procedimentos? Existe alguma diferença entre estudar um grupo de “crentes” (no Candomblé, por exemplo) sendo “cético” e um grupo de “céticos” (na política, por exemplo) sendo “crente”? As supostas diferenças de escala entre objetos, grupos ou sociedades devem inevitavelmente afetar os procedimentos de pesquisa?
Omar Ribeiro Thomaz, UNICAMP, CEBRAP:
Do colonial ao pós-colonial, do arquivo ao campo: "luso","franco" e outras "fonias"
Tradicionalmente, os historiadores da expansão colonial fazem uso de diferentes fontes escritas, na maioria das vezes guardadas em arquivos das antigas metrópoles coloniais e fazendo uso da sempre necessária “crítica de fontes”. O estudo do novo sistema colonial, nas suas mais variadas geografias, permite ainda o uso da “história oral”: afinal de contas, trata-se de um período que, em muitas casos, remonta há apenas três décadas e, podemos afirmar, o “passado” é muito “presente” nestes contextos chamados muitas vezes de “pós-coloniais”. Nesta comunicação, pretendo rever as continuidades e rupturas do “colonial” e do “pós-colonial” partindo de duas experiências de investigação: a primeira diz respeito ao trabalho em arquivos, que resultou numa análise das relações entre cultura e colonialismo tendo como universo o terceiro império português, entre 1930 e 1961; a segunda, toma como foco duas pesquisas em andamento cujo “campo” remete a dois “contextos pós-coloniais”: Moçambique e Haiti. Num primeiro momento, procuraremos enfrentar a história destes “espaços pós-coloniais” com base nos discursos de seus “nativos”; por fim, ao discutir as “facilidades” e “dificuldades” de um pesquisador brasileiro num contexto (supostamente) lusófono e noutro (supostamente) francófono, pretende-se sobrepor os dilemas da experiência da pesquisa de campo a questões de natureza política mais ampla.