GT04 - Etnologia indígena
RESUMOS DOS GRUPOS
1ª sessão: Organização social e parentesco
Hierarquia e fragmentação: análise das relações interétnicas no Rio Negro
Marcela Coelho de Souza, UFRJ:
Nós os vivos: a construção do parentesco e os limites da sociabilidade entre os Jê
Odair Giraldin, UNITINS:
Relações entre forma de transmissão de amizade formal e sistema matrimonial Apinaje
Os dados até agora disponíveis sobre amizade formal Apinaje, foram fornecidos pelas pesquisas realizadas por Nimuendajú (na década de 1930) e por DaMatta (década e sessenta e setenta). Este paper apresenta novos dados etnográficos sobre amizade formal Apinaje, corrigindo informações equivocadas apresentadas anteriormente, tanto no aspecto relacionado à forma de transmissão desta instituição social, quanto às implicações sociais dela decorrente. O ponto principal das implicações sociais da amizade formal é a sua relação com um sistema matrimonial. Num debate com a proposição de DaMatta, de que entre os Apinaje não haveria nem dados estatísticos nem uma ideologia de um sistema matrimonial ideal, os novos dados apontam, ao contrário, tanto para a existência de valores estatísticos quanto para uma forma ideal de estabelecimento de matrimônios.
Cláudio Zannoni, UFMA:
Política e economia na sociedade Tenetehara: uma análise das relações sociais e econômicas
A sociedade Tenetehara – povo indígena do Maranhão – se constitui valendo-se da família extensa como sistema social. Ela está fundada em relações que envolvem a esfera econômica como base para sua sobrevivência social. As relações, portanto, entre o chefe da família extensa e seus genros e/ou filhos são importantes para entender o funcionamento da sociedade como um todo. Entre estes se dá uma relação de “representatividade política” que podemos definir como “cíclica”, sendo que cada um é um chefe em potencial. Se a política é uma atribuição masculina, a economia depende da mulher enquanto produtora e distribuidora dos alimentos. Com base no levantamento do tempo dedicado às atividades agrícolas e/ou de caça, pesca e coleta podemos entender as relações de gênero.
2ª sessão: Ritual e cosmologia
Priscila Faulhaber Barbosa, Museu Emílio Goeldi:
Refletindo sobre as máscaras Ticuna
Os desenhos inscritos nas máscaras, vestimentas e “panos de líber”, classificados como “indumentária ritual de dança”, armazenados na coleção etnográfica “Curt Nimuendajú”, do Museu Goeldi, coletadas por este etnógrafo em 1941-42, mostram padrões recorrentes que correspondem à mitologia Ticuna, dentro de uma reflexão sobre o papel dos relatos Ticuna na festa de puberdade da “moça nova”, worecü, em Ticuna. Trata-se de sistematizar as observações sobre a visão de mundo Ticuna, tendo-se por base uma releitura dos trabalhos etnológicos sobre estes índios, as pesquisas de campo realizadas na terra indígena Evare 1, em 1997-98, e os comentários coletados no resguardo Ticuna colombiano de Nazareth sobre as fotografias dos referidos artefatos, em 1999. Os Ticuna classificam as máscaras pela ordem de entrada na Festa de Worecü. Nos desenhos das máscaras há toda uma concepção Ticuna de um universo em transformação, no qual os corpos celestes e os fenômenos meteorológicos ocupam um lugar central. Nesses desenhos registram-se padrões zoológicos e botânicos, que indicam as diferentes “nações” classificados nas duas metades “pena” e “não pena”, bem como recorrências referentes aos lugares de proveniência deste povo.
Juracilda Veiga, UNICAMP:
Cosmologia Kaingang e suas práticas rituais
Edilene Coffaci de Lima, UFPR:
A morte e os destinos dos mortos entre os Katukina (pano)
Os Katukina, a exemplo de outros povos de língua pano, atribuem dois espíritos ao corpo: o do corpo propriamente dito (yoravaka) e o do olho (wero yuxin). A partir da análise dos materiais katukina, e apoiando-se também em etnografias sobre os Marubo e os Yawanawa, esta comunicação pretende mostrar como os diferentes destinos desses espíritos após a morte – em particular do espírito do olho, que celestialmente troca de pele e adquire um novo corpo – são fundamentais para sustentar uma oposição radical entre vivos e mortos. Desta forma, questiona-se a interpretação de que vigora nos grupos pano uma relação de continuidade entre essas duas classes.
3ª sessão: Antropologia da arte em interface com a etnologia indígena
Acácio Tadeu de Camargo Piedade, UFSC:
Antropologia da música dos aerofones masculinos nas terras baixas da América do Sul
Deise Lucy Oliveira Montardo, USP:
Música e xamanismo Guarani
Maria Mirtes dos Santos Barros, UFMA:
O processo ritual artístico (re)criador da etnicidade krikati
Wu’tu é uma cerimônia que envolve todos os membros da comunidade krikati e demanda um período considerável entre os preparativos iniciais, relativos à abertura, e o encerramento, etapa mais elaborada. O Wu’tu será analisado aqui, preferencialmente, tendo-se por base seus aspectos artísticos enquanto veículo de temas sociais dominantes. Para esse ritual, a comunidade acha-se filiada a duas metades rituais. Estas constituem-se, cada uma, de até cinco grupos que, por meio da arte e das performances por eles realizadas na fase de encerramento, fazem emergir no nível da representação certos aspectos da organização social.
Maria Ignez Cruz Mello, UFSC:
Arte e encontros interétnicos: a aldeia Wauja e o planeta
Esta comunicação procura discutir a opção dos índios Wauja do alto Xingu pela criação de uma associação artístico-cultural como meio para estabelecer relações com os kajaiba e se integrar culturalmente no sistema mundial – opção esta que se alinha àquelas de outros povos indígenas. A maioria das etnografias xinguanas já ressalta o papel que a arte (música, pintura corporal, máscaras, cerâmica, cestaria etc.) desempenha no contexto local, sendo ela o campo por excelência das disputas políticas na região, da distintividade em termos de poder tanto na esfera intra quanto intertribal, assim como também a arte destes índios é um emblema de xinguanidade no mundo do branco. A partir de dados que obtive em trabalho de campo realizado tanto na aldeia Wauja quanto em diferentes cidades onde estes índios se apresentaram, e que constituem minha Dissertação de mestrado sobre música e mito entre os Wauja, procuro mostrar como o campo da estética está ligado à questão da ética e da cosmologia deste povo e como estas relações operam na forma como eles buscam visibilidade e espaço de negociação com a sociedade envolvente. Procuro levantar estas questões no sentido de contribuir com mais dados para o corrente debate entre teorias da cultura e teorias do contato.