GT10 - Pensamento social no Brasil
RESUMOS DOS GRUPOS
1ª sessão: Corte, cidade e sertão
Lilia K. Moritz Schwarcz, USP:
Sobre as barbas do Imperador: a construção da figura do monarca tropical D. Pedro II
Tendo em mente a complexidade e a importância do Segundo Reinado na conformação de um modelo de nacionalidade e a relevância do monarca D. Pedro II nas referências do período, procurou-se neste trabalho entender as construções simbólicas da figura pública desse imperador em suas associações com o fortalecimento do Estado. Fértil na produção de um amplo leque de imagens, o império brasileiro destacou-se em seu papel de criador de ícones nacionais — entre hinos, medalhas, emblemas, monumentos, dísticos e brasões —, assim como concentrou esforços na boa costura da imagem do rei, que parecia simbolizar a pátria. Dialogando com uma longa tradição, herdada das realezas européias, e as novas cores dos trópicos, a monarquia brasileira investiu em um ritual original que permitia, ao mesmo tempo, distingui-la das demais repúblicas americanas que a cercavam e impor uma imagem civilizacional “à européia”.
Paulo Luiz Moreaux Lavigne Esteves, PUC-MG, IUPERJ:
A corte de letras: retórica e prestígio no Brasil oitocentista
Este trabalho pretende recuperar imagens presentes na ficção brasileira oitocentista que permitam qualificar a estrutura e o funcionamento da cidade letrada tal como descrita por Angel Rama. De fato, como será discutido, a partir da leitura das obras Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, e O Ateneu (1888), de Raul Pompéia, é possível perceber uma estrutura de corte — da cidade letrada — na qual a lógica do prestígio se combina a uma concepção segundo a qual a retórica e a gramática são instrumentos de distinção social. Neste sentido, é possível encontrar um movimento de convergência de duas narrativas que sublinham o caráter espetacular das letras e da produção intelectual oitocentista. Em Machado de Assis, a “sede de nomeada” e a “teoria do medalhão” constroem a imagem de um universo atravessado pela paixão cortesã da representação social. Já em Pompéia a “retórica a golpes de martelo” constitui-se no próprio instrumento de distinção e hierarquização social característico desta corte letrada. Contudo, a convergência parece terminar aí. A narrativa de Machado de Assis é vazada por uma ironia dissolvente e melancólica, segundo a qual a própria corte é objeto da ação de um tempo naturalizado e corrosivo, ao passo que a narrativa d’O Ateneu conduz o leitor à epifania incendiária que marca a passagem de um universo cortesão da representação social à transparência e à univocidade do sentido. O trabalho que ora se propõe pretende, portanto, explorar a convergência de duas obras ficcionais oitocentistas no tocante ao desenho de uma corte letrada, bem como as alternativas, sugeridas pelas próprias narrativas, aos impasses presentes em seu interior.
Regina Abreu, UFRJ:
Natureza, cultura, sertões: o encontro de Euclides da Cunha e Araripe Jr.
Araripe Júnior desempenhou papel central para a consagração de Os sertões de Euclides da Cunha. O próprio Euclides, ao ler o ensaio do crítico publicado em março de 1903 no Jornal do Commercio, comentou ter saído da redação do jornal em que trabalhava com “o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador”. Segundo ele, o ensaio de Araripe tinha tido tamanha repercussão que “no dia seguinte” [ele] “que até então era um engenheiro letrado tinha se transformado em escritor”. Além de guindar o autor de Os sertões ao “primeiro lugar entre os prosadores da nova geração”, desempenhando assim papel decisivo na consagração do livro, o texto de Araripe extrapolou a função da crítica para desenvolver uma teoria sobre o Brasil. Esta teoria partia do curioso pressuposto da “obnubilação brasílica” e integrava Euclides numa genealogia que tinha como ancestrais José de Anchieta e Gregório de Mattos. Hoje, passados quase cem anos deste momento inicial, percebemos na formulação de Araripe aspectos de uma interpretação matricial do país, principalmente no que tange ao predomínio conferido à natureza na determinação de uma identidade nacional. A presente comunicação pretende ampliar a reflexão sobre os “sertões” como “coisa boa pra pensar”, enunciando diferentes vertentes do pensamento social. Os conceitos de “natureza” e “cultura” serão úteis neste mapeamento.
Nísia Trindade Lima, FIOCRUZ:
Jeca Tatu e a representação do Brasil
2ª sessão: O modernismo como aperfeiçamento do Brasil
Elide Rugai Bastos, UNICAMP:
O mundo hispânico e o pensamento brasileiro: anos 20 e 30
O texto procura mostrar que, além das já largamente apontadas influências alemã, francesa e norte-americana sobre a sociologia brasileira, é possível constatar-se o influxo das idéias espanholas sobre autores nacionais, principalmente as de Ortega y Gasset, Unamuno e Ganivet. Esse pensamento atua principalmente na formulação da temática e em uma das mais importantes teses explicativas da formação brasileira: o iberismo. A afirmação da herança oriental de nossa cultura apoiada na tese do não-europeísmo da sociedade ibérica, a questão da decadência que “deve” ser enfrentada a partir de princípios diversos daqueles europeus e a crítica ao liberalismo são inegavelmente devedoras ao relato dos intelectuais hispânicos. O trabalho explora o legado desse pensamento na obra de Gilberto Freyre e nas discussões dos articulistas da revista Cultura Política.
Eduardo Diatahy B. de Menezes, UFC:
Alceu Amoroso Lima: o caráter brasileiro/A psicologia do povo - um projeto inconcluso
Robert Wegner, IUPERJ:
O Brasil e a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda
No mais famoso livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936), é possível detectar uma visão ora positiva, ora negativa dos Estados Unidos. De qualquer forma, tanto num caso quanto no outro, a experiência norte-americana é concebida como essencialmente antagônica à brasileira. O objetivo de nossa apresentação é tentar mostrar como em suas obras seguintes, Monções (1945) e Caminhos e Fronteiras (1957), essa antítese Brasil/Estados Unidos é abrandada, o que se tornou possível graças a uma releitura da história de ambos os países, agora vista a partir da experiência comum da “fronteira”. Este reposicionamento, segundo minha leitura, permite ao autor uma interpretação do Brasil que escapa de dicotomias fechadas como atraso/moderno e, ao mesmo tempo, lhe possibilita uma certa resolução do tenso par “cordialidade/civilidade” presente em Raízes do Brasil.
Fernanda Peixoto, UNESP/Araraquara, USP:
Diálogo interessantíssimo: Roger Bastide e o modernismo
A idéia desta comunicação é examinar as várias faces do diálogo travado entre Bastide e o modernismo — destacando Mário de Andrade como interlocutor privilegiado —, de modo a acentuar certas inflexões desta conversa animada. O meu objetivo é mostrar como os primeiros passos de Bastide no Brasil são dados segundo a orientação de um roteiro previamente traçado pelo grupo paulista, e por Mário em particular. Este diálogo, além de representar uma espécie de iniciação do francês em terras tropicais — diálogo inaugural, portanto —, permite a Bastide definir um lugar como intérprete da sociedade e da cultura brasileiras. Como procurarei mostrar, é no debate com os modernistas que o sociólogo problematiza o seu olhar de estrangeiro — logo, a sua identidade — na busca da “alma brasileira”, estabelecendo um patamar de observação.
3ª sessão:Novos tempos: democracia, desenvolvimento e crítica da tradição
Silvana Rubino, PUCCamp, UNICAMP:
Os espaços de Lina: cultura e política em São Paulo e Salvador, 1947-1964
A arquiteta italiana Lina Bo Bardi é conhecida por poucos mas expressivos projetos, como o Museu de Arte de São Paulo e o SESC Pompéia, entre outros. Mas Lina, que chegou ao Brasil em 1947, dedicou-se também ao jornalismo, à edição da revista Habitat, à museologia e recuperação de bens culturais. O objetivo desse trabalho é recuperar a primeira fase de sua carreira no Brasil, especialmente as atividades ligadas ao primeiro MASP — quando o museu ainda funcionava na rua 7 de Abril — e ao período que viveu em Salvador, onde recuperou o Solar do Unhão e dirigiu o Museu de Arte Moderna.
Marcos Chor Maio, FIOCRUZ:
O Projeto UNESCO e a agenda das ciências sociais no Brasil dos anos 40 e 50
Em um de seus últimos artigos, escrito em 1948, Arthur Ramos reiterava que o Brasil era um imenso “laboratório de civilização” que só então começava a credenciar, por meio dos cursos de ciências sociais, especialistas que pudessem se inserir de modo eficaz nesse “laboratório”. Naquela ocasião, o antropólogo apresentou uma agenda das ciências sociais voltada para o complexo cenário nacional. Só com base em pesquisas minuciosas, de caráter socioantropológico, poder-se-ia escapar das visões “impressionistas” do país e oferecer “planos normativos de ação”. Dois anos após a publicação de “Os grandes problemas da antropologia brasileira”, Arthur Ramos faleceu, depois de curta e intensa militância na UNESCO. Nesse período, o Brasil transformou-se em foco de atenção da agência internacional, tendo em vista a realização de uma ampla investigação sobre as relações raciais no país. Finalmente, o projeto de Arthur Ramos tornou-se realidade, na medida em que a pesquisa da UNESCO convergia em torno do propósito do cientista social de apresentar novos elementos à inteligibilidade do “ethos brasileiro”. Este trabalho tem por objetivo analisar os elos de continuidade entre a produção intelectual no campo das ciências sociais no Brasil dos anos 40 e o ciclo de pesquisas patrocinado pela UNESCO nos anos 50. Considero que o projeto UNESCO é a realização bem-sucedida da agenda das ciências sociais formulada em momento anterior, no qual a crença em uma sociabilidade positiva existente no país não importava no cancelamento das preocupações com a incorporação de determinados estratos sociais à modernidade.
Heloísa Maria Murgel Starling, UFMG:
Grande sertão: Brasil
Trata-se de leitura de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pelo prisma da teoria política, agrupada aqui em torno de uma tradição interpretativa que associa a idéia de liberdade ao princípio republicano de participação dos indivíduos em uma prática política comum. Visto nessa perspectiva, o romance representa uma espécie de síntese do universo ficcional de Guimarães Rosa, propositadamente direcionado para tentar decifrar imagens do Brasil por meio da figuração de um mundo arcaico, longínquo, fechado sobre si mesmo, enganadoramente imóvel e mítico — o sertão. Este trabalho pretende reingressar na situação narrativa da obra com o objetivo de explorar alguns traços estruturantes de sua proposta diferenciadora de releitura do país. Tal proposta surge sustentada por uma estratégia ficcional que cria, mas deixa em aberto, as possibilidades de escrever, em termos literários, a nação, para permanecer sempre articulando suas novas relações significantes. Em conseqüência, Grande sertão: veredas sugere um esforço de releitura do país que se afasta radicalmente das possibilidades ficcionais de representação do nacional como identidade, bem como dos discursos que incidem sobre a metáfora da unidade e da coesão nacional e do projeto de homogeneização cultural que a sustenta.
Mariza Veloso, UnB, Min. Rel. Exteriores, e Maria Angélica Madeira, UnB, Min. Rel. Exteriores:
Leituras brasileiras - itinerários no pensamento social e na literatura